Bohemian Rhapsody: o conto de um mártir do rock clássico

Cena do filme Bohemian Rhapsody, quando Queen se apresenta no show de Wembley para o Live Aid | Foto: Divulgação

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08 Novembro 2018

Forte, vívido e com ares de ópera, Bohemian Rhapsody — o filme do Queen — sempre foi feito para ser o conto de um mártir, um romance trágico, quem sabe a resposta do rock a La Boheme. Freddie Mercury, cantor principal da banda, morreu de complicações em decorrência da Aids em 1991 — cedo o suficiente na epidemia para ser uma das vítimas mais célebres. A banda era enorme (ainda é; poucos shows terão público maior), e Freddie Mercury foi o artista mais extravagante do pop — um ícone no armário que lançou a estética gay rumo ao estrelato. É uma história comovente até hoje. Ou principalmente hoje em dia.

O comentário é de John Anderson, crítico de TV do Wall Street Journal e editor do New York Times, publicado por América, 01-11-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Capa do filme | Divulgação

Os "problemas" de Bohemian Rhapsody — que recebeu esse título pelo hit de 1975 que permaneceu como uma das obras-primas iconoclastas do rock — começam com as enormes expectativas sobre o filme e o investimento afetivo que tantos fãs têm sobre a banda. E a representação de Rami Malek ("Mr. Robot") de Freddie Mercury, com os dentes falsos de coelho, é incrível de assistir. Mercury, com todas as características de alguém de fora que um jovem não queria ter em Londres nos anos 70, encontra o triunfo não apenas sobre o pop tradicional, mas também sobre a beleza convencional.

Freddie Mercury, vocalista do Queen, foi o artista mais extravagante do pop — um ícone no armário que lançou a estética gay rumo ao estrelato.

Mas o filme é muito mais conservador do que quem é retratado, tendo duas pessoas entre a equipe de produtores: o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor. Saber disso dá ainda mais a impressão de fraude na história: a dinâmica da banda quase não tem espaço no filme. Os conflitos são sempre externos ao grupo, nunca internos, pelo menos até quase o final do filme, quando Freddie decide lançar a carreira solo por nenhuma razão aparente. Ele acaba admitindo seus erros e retorna a tempo para a apresentação célebre do Queen no show beneficente do Live Aid, em 1985 — recriado pelos cineastas com uma mistura inebriante de grandeza e adrenalina.

O sentimento comum de malícia musical entre os companheiros de banda — May (Gwilym Lee), Taylor (Ben Hardy) e o baixista John Deacon (Joseph Mazzello) — é um elemento emocionalmente reconfortante em Bohemian Rhapsody; o retrato pode ser verdade, mas os filmes raramente deixam os fatos atrapalharem o conveniente conflito dramático. Mas a história real é um pouco diferente. Freddie Mercury nunca se casou com a melhor amiga Mary Austin, interpretada por Lucy Boynton, por exemplo. E há outros aspectos problemáticos em torno do lançamento do filme: o diretor Bryan Singer não só foi demitido pouco antes da conclusão da fotografia principal (sendo substituído por Dexter Fletcher), como está respondendo a acusações de abuso sexual. E com toda a energia e animação, Bohemian Rhapsody parece ser um filme em conflito consigo mesmo.

Queen antes de subir ao palco de Wembley (Foto: Reprodução - www.gosocial.co)

Na manhã depois de assistir ao filme com minha habitual parceira de cinema, Sue, e de termos dissecado o filme no jantar, ela me enviou um e-mail perguntando: "Você acha que o filme difama a comunidade gay?" Não era a pergunta que eu esperava. Mas era uma boa pergunta.

Em certo sentido, não: o Freddie Mercury do filme chega completamente formado. Filho de pais imigrantes e conservadores (pársis, chegados por Zanzibar), ele passa por uma evolução sem clichês desde o violeta inseguro até os agudos no Queen. Talvez não tenha saído do armário, mas é uma figura bastante excêntrica. Quando Mary diz para Freddie, que está cada vez mais distante, "eu já suspeitava que você era gay há algum tempo" (ou algo assim), o público deve se perguntar: "Por que levou tanto tempo?"

Por outro lado, o produtor Paul Prenter (Allen Leech), que surge como o único aliado gay de Freddie em meio à vasta maquinaria do Queen, também é o vilão do filme, excluindo Freddie de todos e protegendo seu território com cuidado. Ele também parece conduzir Freddie a um mundo gay de couro que começa com uma imagem cristã nada sutil. Intercalando filmagens de shows e as tentações de Freddie fora dos palcos, o filme coloca lado a lado sua rendição aos seus impulsos mais obscuros com cenas de Freddie deitado, sobre uma multidão de fãs que o veneram, e na posição completa da crucificação. Não é sutil.

Mas, ao mesmo tempo, o que significa? O martírio de Freddie Mercury no palco da vida público é claro — as cenas de legiões da imprensa britânica o perseguindo retrata o tipo de coisa que leva as pessoas ao esgotamento. A vida privada é outra coisa.
Vai parecer estranho, mas, em minhas reflexões sobre o altamente divertido - se problemático - filme Bohemian Rhapsody, fico pensando em Lawrence da Arábia, um verdadeiro épico, mas também um filme com muitos paralelos com o de Singer.

Seu herói era sexualmente reprimido, a guerra dentro dele mesmo se refletia em seu conflito com uma força externa (o inimigo de Freddie era a musicalidade pop padrão). Tinha aliados extremamente leais, mas as forças do sistema fatalmente se sobrepuseram a ele. Sua morte é indicada — ou, na verdade, expressa — já na abertura da história. E apesar de a precisão histórica não ser a prioridade, a moral da história é o sacrifício: o artista em uma cruz. Isso pode parecer um pouco grandioso, mas a grandiosidade sempre foi o combustível do Queen e de Freddie Mercury — e também de Bohemian Rhapsody.

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